Megaforce: O verdadeiro local de peregrinação dos headbangers gaúchos
Postado em 11 de março de 2019 @ 15:07 | 1.254 views


Assim como o Bar João, a mítica Loja Megaforce foi de extrema importância para os headbangers gaúchos. Fundada em 02/02/1984 e fechada oficialmente no dia 05/05/2005, a meca dos headbangers gaúchos foi um local de peregrinação, já que era um dos únicos locais em que era possível comprar discos na década de 1980. Abaixo, o texto completo que foi publicado na primeira edição do livro Tá no Sangue! – A História do Rock Pesado Gaúcho, que contou com diversos depoimentos de funcionários e do público que frequentava a loja.

Dois de fevereiro de 1984 é a data de inauguração da Megaforce, a primeira loja exclusivamente de Heavy Metal de Porto Alegre. A pequena loja ocupava dois pisos do Centro Comercial Independência. Eram precisamente das mãos de Ademir Kessler, proprietário da Megaforce, e do seu sócio Jefferson Bellio, o Féfi, que chegavam aos interessados as novidades fonográficas mais pesadas editadas fora do estado e do país. “Descobrimos a Megaforce e nossos problemas acabaram, ou começaram… não sei bem, porque queríamos torrar todo e qualquer tostão lá. No início era Slayer, Venom e Exodus. Nossa! Apaixonei-me por Slayer. A grana era mirrada para poder comprar um LP. Quando podia comprar, dez gravavam, sabe como é, podia não haver uma próxima chance. Outro fato legal eram as trocas de fotos e reportagens que a gente fazia, aos sábados pela manhã, no Centro Comercial Independência. Caramba! Juntava uma vasta galera, de todos os gostos. Quantas vezes deixei de comer para comprar fotos do Slayer. Mas valeu! Também a gente aproveitava para ficar pela Megaforce para ouvir som, ver vídeos e marcar a hora do boteco”, enfatiza Mara “Slayer”.

Em meados da década de 80 era mais fácil arranjar material estrangeiro através da gravação de fitas na Megaforce. Os discos de vinil importados eram caríssimos e, geralmente, o pessoal recorria às gravações. “O Ademir importava o disco e copiava numa fita matriz de qualidade chromo e dela fazia várias cópias. O deck dele era um Technics tri bom, era um dos melhores que existiam na época, três cabeças e tal”, lembra Cléber Luiz.

Mais que um comércio, a loja ganhou ao longo dos anos o status de ponto de encontro dos adeptos do som pesado, principalmente aos sábados. Não só dos rockers e headbangers em geral, mas também das bandas que nasceram na cidade. “A turma de Guaíba chegou a frequentar a Megaforce na época dos vídeos. Não tinha nada, era um balcão feito de madeira e uma caixa de três repartições. Foi ali que foram formadas bandas. Conhecemos um monte de gente, como o Jacques Maciel (Rosa Tattooada), que era um gurizinho na época, e o Paulo Cássio, que tocou na primeira formação do Rosa Tattooada, e na Panic. Lembro dele falando sobre ingressar na Panic”, conta Cléber Luiz.

Marcelo Russowski no subsolo da Galeria Independência, onde funcionava a Megaforce

O ex-baterista da Panic, Marcelo Russowski, era cliente assíduo da loja desde os primórdios e tinha um excelente relacionamento com Ademir, que apresentou material da banda a Walcir Chalas, da Woodstock Discos, de São Paulo, responsável pela gravação do primeiro disco da banda. “O pessoal costumava gravar, mas eu nunca gravava; comprava dele todos em LP. Toda a minha grana ia ali, então o Ademir começou a me tratar de uma maneira diferenciada e depois ficamos amigos. Aí obtive um ‘passe livre’ na Megaforce. Pegava os LPs, levava pra casa, escutava, escolhia o que queria e devolvia os outros, pois comprava muitos discos dele. Ele emprestou à Panic um pequeno depósito e depois conseguiu alugar um depósito gigante no subsolo da Galeria, e a gente fez o estúdio lá. Isso fez parte da minha vida. A Megaforce foi o que determinou toda a minha adolescência até a fase adulta. A Megaforce era a minha vida, literalmente. Fazia tudo em função de estar lá com a galera. A primeira vez que fui para São Paulo foi com o Ademir. Eu fui atrás de uma bateria, uma Ludwig do caralho, que comprei na época, e até rolou um papo que ela era do Alex Van Halen, o que eu nunca consegui comprovar. Lembro-me dela chegando naqueles containers, e foi um evento na Megaforce”.

Além de gravações em fitas cassetes de discos importados, camisetas e artigos de Rock, a loja oferecia uma sala de vídeo no andar superior para contemplar os headbangers gaudérios. A abertura da Megaforce também promoveu a revolução da camiseta preta em Porto Alegre. “Eu estava em Canoas e meu amigo Ênio me disse: ‘Bah, cara, abriu uma loja em Porto Alegre que tu vais ficar louco! Cara, uma loja especializada em Metal! Quando a gente entrou na Megaforce quase surtei. Tudo que tu sonhavas tinha ali. No andar de cima, havia um vídeo cassete, que não era qualquer um que tinha, onde passava shows gravados e ele vendia ingressos para assistir no final de semana. Quando a gente saía da sala de vídeo já tinha um pequeno cartaz – ‘próximo sábado – AC/DC ao vivo no Japão’, por exemplo. Aí, Porto Alegre explodiu para o Metal. Dava para dizer que existia um movimento Heavy Metal em Porto Alegre. Não era mais aquela coisa de Rock Pauleira. A camiseta preta tomou conta da cidade, já existia divisão de estilos, shows de Metal.”
– assinala Alexandre “Tiziu” Nascimento.

Quem entrava na Megaforce podia deixar publicações em formato de zine, que iam espalhando as informações e últimas novidades em relação ao que estava acontecendo dentro e fora do Estado. “A Megaforce, embora fosse uma loja, um comércio, apoiava as bandas. Quem fazia fanzine podia deixar lá. O pessoal se reunia para conversar e trocar recortes de revistas”, diz André Spades. A Megaforce se tornava referência no som pesado no Rio Grande do Sul, uma espécie de santuário do Rock Pesado que atendia a demanda da geração de headbangers pós Rock in Rio 85. “Frequentei muito a Megaforce entre 1986 e 1992. Quando descobri a loja, deparei-me com o Ademir, com aquele jeitão dele lá parado no meio daquela zueira de camisetas de bandas. Lá eu me senti no paraíso”, lembra Daniel Biu, caxiense, mas estudante de Engenharia Química na UFRGS na época.

Além de moldar o caráter musical de quem frequentava o local, a Megaforce ainda recrutava funcionários headbangers. Um deles foi Zé Henrique. “Um cara falou pra mim: ‘ô meu, tem uma loja no centro que só tem disco de Heavy Metal, vamos lá’. Quando cheguei, parei na frente. Olhei, tinha um pôster do Iron Maiden, do Powerslave. Quanta banda que eu não conhecia. Quando entrei, o Ademir, com aquela cara dele, e eu, todo espiado. A loja estava cheia, e eu, olhando com medo. Lá estava o Regener, da Panic, com um jaquetão de patches. Como é que o cara conhece essas bandas? O meu amigo me falou: ‘eles gravam fitinhas’. Tinha uma lista na parede do que tinha pra gravar. Na época, eu era meio Maiden maníaco. Fui direto. Aí descobri que ia passar ali o vídeo do Animalize, do Kiss. Eu tinha que assistir! Era às duas da tarde de sábado. Pra não levantar suspeitas, falava pra minha mãe que ia ao cinema ver o Kiss. Assim, comecei a me enturmar e trocar fotos. Todos meus amigos que conheci foi por causa da Megaforce. Foi muito engraçado. Como atendente da loja, no início, passou (por lá) o Akira, que estava indo embora para o Japão, passou o finado Kid, passou o Jacques Maciel…” – relembra Zé Henrique, que foi contratado para trabalhar na Megaforce.

Outro a ser contratado logo em seguida foi Wilmar Souza Filho. “Na primeira vez entrei com medo na Megaforce para gravar o “Sign of the Hammer”, do Manowar, que tinha saído em uma edição da Rock Brigade. Levei uma fita chromo e o Ademir perguntou: ‘quer com dolby ou sem dolby?’ (recurso do aparelho para tirar os ruídos, mas que acabava dando um ganho de agudos). Ah, nem sabia o que era isso, disse que sim. Fiquei com tanto medo de entrar que pedi para o pai buscar a fita pra mim. E o Ademir com aquela ‘simpatia’ dele… A loja toda preta, cheia de camisetas… Depois, peguei uma fita Scotch 60 e cheguei lá pra gravar o “Heavy Metal Maniac”, do Exciter. Criei coragem para buscar. Cheguei em casa para ouvir e tocou um lado só e pensei: ‘Puta que pariu, o cara me enganou, não gravou as outras músicas!’ Dois dias depois que fui me flagrar. O resto estava no outro lado. Ele gravava o lado A do disco no lado A da fita e o lado B do disco no lado B da fita. Eu já gravava corrido pra economizar a fita.” – confessa Wilmar. (Obs.: as fitas cassete mais usuais eram as de sessenta minutos, com trinta de cada lado.

Os discos em geral, com 4 ou 5 músicas de cada lado, raramente preenchiam todo o lado da fita. O mais comum era gravar cerca de 8 músicas do disco em um lado da fita e as outras duas restantes no outro lado.) Para Fabiano Penna, a “molecada de hoje em dia não sabe o que perdeu” e complementa: “Eu morava bem longe do centro, então sair de casa e ir até essas lojas era um evento. Esperava dias pra poder fazer isso, botava a jaqueta cheia de patches e ia com os amigos para as lojas. Hoje em dia, é tudo pela Internet, mudou completamente o sentido das coisas. Acredito que esse tipo de movimento existiu, sim, em todas as grandes capitais brasileiras. Felizmente, fiz parte de uma geração que viveu isso de perto”. Jefferson Witt passava as tardes no centro de Porto Alegre, na frente da Megaforce “falando merda a tarde toda e discutindo sobre os álbuns lançados e quais os discos e bandas preferidos. A gente dava risada o dia todo, não se preocupava muito com o outro dia”.

Flávio Soares – O Ademir foi o cara que me apresentou ao Rossano e o Carmelo, da Leviaethan, íamos para a casa do Ademir nas sextas feiras à noite e ficávamos lá ouvindo as novidades e tomando vinho branco.

Carlos Lots – Quando descobri o Metal, em 84, eu frequentava com certa assiduidade aquelas sessões de cinema do Ademir. A gente aprendeu muito ali, conhecendo um monte de bandas.

Martin de Andrade – O telão ‘super HD’ do Ademir era demais. Era como se estivéssemos indo para o show. Às vezes, a galera se emocionava comesse clima. Ele subia lá e dava uma ‘mijada’ no pessoal, parecia um ‘paizão’. Depois eu voltava para casa absorvendo cada letra e sílaba do material. Saudades dessa época.

Jefferson Witt – Eles trouxeram aos porto-alegrenses os primeiros discos de Metal de bandas que não faziam parte das grandes gravadoras, das bandas que não tinham o mesmo apelo comercial. Seja como fosse, mais extremo ou mais glam. Sem falar em fotos e vídeos dos nossos ídolos, que antes só conhecíamos através dos encartes dos discos.

Eron Dal Molin – Quando eu cheguei a Porto Alegre, eu ia direto à Megaforce. Toda hora tu ia lá encontrar os caras que curtiam para trocar “figurinha”. Tinha também Rock Brigade e outras revistas que traziam muita informação.

Fabbio Webber – O Ademir sempre sisudão… O cara chegava à loja e dizia: “Bom dia, Ademir…” e ele respondia: “Bom dia só se for para ti… Bom dia, por quê?” Virou vício, chegou uma época em que eu tinha que comprar algo novo na Megaforce… Não podia chegar em casa sem nada!

Sfinge Lima – O Ademir era foda: “posso olhar aquele disco?” E ele: “só se comprar!”

César Louis – O Ademir dizia: “esse aqui é bom! Excelente!” Aí tu chegava em casa, era um abacaxi brabo. “Porra, ele me empurrou esta merda!” Teve uma época dos discos do Venom, com aquelas capas, e o Ademir tocava lá em cima o preço, parecia que eles estavam em um “altar”.

Em Tá no Sangue! – A História do Rock Pesado Gaúcho – Parte 1”, escrito por Maicon Leite, Douglas Torraca e Luis Augusto Aguiar, há um capítulo especial sobre os Points de Rock de Porto Alegre, como o Bar Ocidente, Lola, Rolla Rock, as divergências entre as tribos (as famosas brigas entre Punks e Bangers), etc. Para ler mais depoimentos e outros textos e relembrar alguns acontecimentos, acesse a página do livro, e para quem quiser adquirir o livro e conferir tudo o que se passou na cena gaúcha até o final da década de 1980, basta entrar em contato através do e-mail projetolivrors@gmail.com (o custo do livro + correio é de R$ 45,00 no total).

A primeira parte de Tá no Sangue! – A História do Rock Pesado Gaúcho” foi lançada na 60º Feira do Livro de Porto Alegre em 2014, e aborda os primórdios do Rock Pesado Gaúcho, desde os anos 60 e 70 até o final da década de 1980. A segunda parte do livro abordará somente a década de 1990, dando continuidade nos fantásticos depoimentos de quem sobreviveu às inúmeras cachaçadas neste verdadeiro patrimônio histórico gaúcho.

 

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Categoria: Artigos · Livros


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