Metal em Porto Alegre: A Igreja da Glória e o Padre Headbanger
Postado em 12 de março de 2019 @ 22:46 | 429 views


Sacrario em momento de descontração num ensaio no porão

Garagens, porões, quartos, estúdios… Havia vários locais onde as bandas ensaiavam, mas nenhum tão inóspito quanto dentro de uma Igreja. Na segunda metade da década de 80 até o início dos anos 90 algumas bandas de Porto Alegre contavam com a ajuda do “Padre Headbanger”, que cedia o porão da Igreja para ensaios. A Igreja da Glória, inicialmente apenas uma capela, foi construída entre 1893 e 1894, tornando-se uma paróquia em janeiro de 1916. Localizada na Avenida Professor Oscar Pereira, abrigava ensaios de bandas como Sacrario, Alchemist, Gladiator, e talvez seja por isso que dizia que “o padre era meio surdo”, brincou Robson Rachinhas, vocalista do Gladiator. O padre João Germano Rambo comandou a paróquia por 40 anos.

Marcelo “PT” Cougo, baixista do Alchemist, atesta a importância do religioso, dizendo que “este cara foi importante para uma parte da cena local”. César Louis relembra alguns fatos: ”O ensaio era literalmente embaixo da Igreja, ficava tudo tapadinho e as bandas tocavam em dias diferentes, rolava legal sem estresse nenhum”. Carlos Lots, que na época tocava com a primeira versão da Sacrario, conta que a banda ensaiava em um sítio no bairro Belém Velho, na casa do guitarrista, mas moravam em Teresópolis/Glória. O quartel general da banda era na casa do baterista e do baixista, que eram irmãos, o Vágner e o Ricardo, que depois viria a ser baixista do Gladiator. Ali também existiam os amigos de infância, um deles, Ricardo Lang, era baterista do Impacto, uma banda de baile.

Carlos Lots explica melhor como tudo começou: “Eles ensaiavam na Igreja da Glória e tinham um esquema com o Padre, só que os caras mudaram de lugar, eles haviam investido ali colocado uma porta de ferro e grades, pois quando pegaram pela primeira vez as portas eram de madeira, aí ele falou: “vocês estão precisando de um lugar”? “Eu falo lá com o Padre e passo o estúdio para vocês, e aí o Ricardo Lang, que era amigo do Vágner facilitou tudo, pois durante muito tempo a gente não pagou nada”. Mas, com os ensaios cada vez mais frequentes, a conta da luz começou a aumentar, foi aí que o Padre intimou a gurizada: “Óh rapaziada, a luz tá dando muito alta”!” Ensaiando todos os dias das 19h às 21h/22h, o Padre só pedia para a barulheira não passar das 22h, mas nem sempre era obedecido: “A gente chegou a ensaiar algumas vezes bem tarde, e até nos incomodamos com algumas pessoas”, confessa Lots. Gilson, irmão de Robson, confirma a história: “Nós, de tempos em tempos, dávamos um dízimo, uma graninha, era uma mixaria, e o nosso único compromisso era não tocar no horário de missas, mas mesmo assim muitas vezes a gente acabou tocando em horário de missa.

Integrantes da Gladiator e Sacrario voltando ao porão após décadas – Foto por Lauro Alves / Agencia RBS

O pessoal brincava na época que o padre tirava um quepe e caia uma cabeleira e tirava a batina e tinha uma camiseta do Slayer”. Como uma banda levava a outra, quem levou o Gladiator pra lá foi a Sacrario, explica Robson: “Pintou esta ideia de dividir o local na igreja, tinha um salão e um canto mais isolado, a Gladiator com o canto, e o salão ficou com a Sacrario. Depois a Sacrario abandonou e o salão ficou para nós”. Reza a lenda que o Padre dava umas “bangeadas”, conta Sfinge Lima: “Tinha uma capa do Slayer na entrada. O padre curtia Heavy Metal. A gente estava ensaiando Metal, mosh e daqui a pouco abria a porta e a gente olhava e o padre estava curtindo e batendo a cabeça. Aí mudou o padre e nos ferraram na igreja, botaram um grupo de jovens para tocar lá!”.

Os ensaios duraram até 1993 ou 1994, e quem hoje a frequenta não imagina a bagunça que rolava por lá daqueles tempos.

Em Tá no Sangue! – A História do Rock Pesado Gaúcho – Parte 1”, escrito por Maicon Leite, Douglas Torraca e Luis Augusto Aguiar, há um texto especial sobre o Padre Headbanger.  Para ler mais depoimentos e outros textos e relembrar alguns acontecimentos, acesse a página do livro, e para quem quiser adquirir o livro e conferir tudo o que se passou na cena gaúcha até o final da década de 1980, basta entrar em contato através do e-mail projetolivrors@gmail.com (o custo do livro + correio é de R$ 45,00 no total).

A primeira parte de Tá no Sangue! – A História do Rock Pesado Gaúcho” foi lançada na 60º Feira do Livro de Porto Alegre em 2014, e aborda os primórdios do Rock Pesado Gaúcho, desde os anos 60 e 70 até o final da década de 1980. A segunda parte do livro abordará somente a década de 1990, dando continuidade nos fantásticos depoimentos de quem sobreviveu às inúmeras cachaçadas neste verdadeiro patrimônio histórico gaúcho.

 

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